Um vinho de espírito livre: blog à prova

“Quantos anos tens? Qual o teu melhor ano?” Perante estas perguntas, uma vida pode passar à frente dos nosso olhos: momentos, pessoas, viagens, aromas, sabores, sorrisos, lágrimas, paixões, dias mais quentes ou dias mais frios. Mas, quando alguém pergunta em que ano nascemos, não hesitamos em dizer que o “nosso ” ano foi de colheita “vintage” – indubitavelmente em todo o universo não haverá melhor.

E quando olhas para o vinho? Perguntas-lhe a idade? Qual o seu melhor ano? Tens uma garrafa de 2016 e 2015 à tua frente? Qual escolhes? O que tiver o rótulo mais bonito? Quando um amigo te sugere um vinho? Disse-te o ano? Perguntaste? Se não perguntaste, devias. Se depois deste artigo não perguntares, é porque o vinho não é definitivamente um interesse.

Esta é uma pergunta vulgarmente esquecida, mas que tem a sua importância, até porque se um vinho tem a sua personalidade, cada colheita terá o seu caráter, as suas vicissitudes, as suas experiências e as suas decisões (boas ou más), às quais o vinho e o passar do tempo darão a sua resposta.

É por isso que, quando o “destino” te coloca a possibilidade de realizar uma prova vertical de Blog (rótulo preto), em casa do próprio Tiago Cabaço (um dos melhores produtores de vinho do Alentejo), só podíamos aceitar e entregar-mo-nos a essa arte humana de provar, degustar e, claro, partilhar. E assim, fomos nós de abalada para Estremoz ainda sem saber o que íamos encontrar, apesar da certeza de os ingredientes para um fim-de-semana memorável estarem reunidos.

Para os menos conhecedores, uma prova vertical de um vinho consiste na prova do mesmo vinho, de diferentes colheitas. Este tipo de degustação permite-nos observar a evolução do vinho e as características particulares da colheita de cada ano.  E foi após uma visita à adega e prova da gama de vinhos Tiago Cabaço, que deixaremos para outras núpcias, para o jantar tínhamos o Blog (rótulo preto, castas Alicante Bouschet, Touriga Nacional e Syrah) das colheitas 2007, 2008, 2009, 2010, 2011, 2012, 2013, 2015, e 2016, 2017 prontíssimo para a prova.

 E porquê chamar Blog a um vinho? Tiago Cabaço é claro ao afirmar que um Blog é sobre partilhar com o mundo as nossas paixões, algo que o produtor relaciona com a sua atividade. O nome, claro, é diferenciador e de fácil internacionalização. Toda a experiência a que tivemos acesso, teve a palavra partilha como denominador.

A prova foi surpreendente. Um abrir de olhos ao significado da colheita, do trabalho, do clima e, claro, desse mestre que é o tempo.  É impressionante a juventude  que vinhos de 2007, 2008, 2010 ou 2011 revelam. Simplificando, é olhar para os vinhos e encontrar uma cor vibrante, brilhante, viva e aromas frescos e ainda intensos (a casta Alicante Bouschet ajudará, mas não é só).

Às cegas diríamos que o vinho não poderia ter mais de dois, três anos.  Sublinho, que a prova foi realizada durante ao jantar, que permitiu uma excelente harmonização de um vinho intenso, complexo, de caráter forte, mas de grande frescura e toque elegante (todos as colheitas demonstraram estas características em maior ou menor grau).

Nesta experiência (sem querer ser exaustivo em notas de prova), começamos em 2007 (colheita que ainda contava com a casta Cabernet Sauvignon, que não foi incluída das edições seguintes) de cujas notas a pimento vermelho (ver pirazina) se afirmam ainda de forma viva. Sublinha-se a elegância e a acidez de um vinho que está a caminho dos 14 anos.

Em conversa, Tiago Cabaço diz-nos estes anos revelam muito o percurso do produtor e do amadurecimento do projeto que este vinho representa. A passagem de 2007 para 2008 é uma evolução marcante. Na boca e nariz, o Blog 2008 assume outra exuberância e tem um toque especiado (como se a nossa língua e palato reagissem a uma boa colherada de especiarias) que não encontramos no anterior.

O Blog 2009 é de todas as referências aquele que mais apresenta o passar do tempo, tanto no nariz, como na boca, onde parecem surgir notas de chocolate. Está menos vivo e exuberante. Na minha opinião, 2010 foi o mais completo dos vinhos apresentados e seria aquela que eu escolheria para comprar e beber no imediato, tem um equilíbrio e uma ponderação única. Se lhe atribuísse um traço de personalidade, o Blog 2010 é aquela pessoa com savoir-faire que se adapta a qualquer circunstância. O que contraste com 2011 que é o vinho que ocupa o lugar, o vinho que fala mais alto à mesa e aquele que a par de 2015, o que mais promete. 2011 (ainda algo fechado) é em potencial talvez o melhor vinho dos irmãos, mas o passar do tempo é sempre imprevisível.

Podemos dizer que foi a partir de 2010 que Tiago Cabaço encontrou o caminho. As diferenças passam a ser menos notórias. Na intervalo entre a primeira e segunda ronda de provas, Tiago Cabaço partilhou connosco a novidade Blog Branco (já esgotado) e podem encontrar a crítica na página do site Wine&Stuff  que nos acompanhou na visita.

Na segunda ronda de prova, tornou-se mais difícil sublinhar diferenças, porém realçamos o 2013, 2015, sendo que naturalmente o tanino (sensação de adstringência no palato) está mais presente e agradará àqueles que preferem esse perfil. Realçamos o equilíbrio entre acidez e a estrutura dos vinhos. Quanto a 2016 (promete muito) e 2017, são vinhos que prometem envelhecer e crescer em complexidade, mas nos quais a frescura e potência são ainda demasiado evidentes. A noite foi concluída a provar o fabuloso “M” o mais recente e talvez melhor vinho que Tiago Cabaço já produziu, um vinho dedicado às M da sua vida.

O Blog é um vinho que demonstra que é possível ter idade, crescer e ainda ser jovem. É um vinho para as pessoas de espírito livre.

A nossa recomendação se quiserem provar, comprar, beber e saborear o Blog (rótulo preto), muito em breve: 2008, 2010, e 2015 (este mais jovem e fresco) são as nossas preferências. Se estão a pensar aguardar um pouco mais 2011 e 2016 podem ser fantásticas e surpreendentes opções.

E após, esta “viagem” pelo tempo, é momento de agradecer a Tiago Cabaço e ao amigo Paulo Pimenta (Wine&Stuff) pela companhia e extensão do convite.

Obrigado.

Paulo Salgado

PS – Não se esqueçam, da próxima vez que gostarem mesmo muito de um vinho, perguntem-lhe “quantos anos tens?”.

(fotografias: autoria própria – tudoincluido.co)

 

 

 

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