Desculpem. Não vou dizer que o vinho se portou bem, que se mostrou à altura do que da prova ou do acontecimento (ou seja lá o que isso quer dizer), nem sequer vou dizer que mostrou grandiosidade, ou que não desiludiu, ou que revelou todo o seu caráter (que caráter é esse afinal? – é que há caracteres para todos os gostos e feitios), ou por fim, dizer que este sim, é um vinho sério (há vinhos feitos a brincar?). Não vou.
Porquê começar assim? Estarei mal disposto? Irritado? Admito que expressões genéricas dizem-me pouco, mas também não é por isso.

É sim, porque o Proibido Vinha Velha do Pombal tem esse mérito, não é um vinho de lugares comuns, de expressões vazias, de pessoas de pancadinhas nas costas. É um vinho intenso, elegante, que tem um frescura incrível, que é equilibrado por taninos bem presentes (mas bem tolerados) e com acidez marcante.
É incisivo, é sofrido, austero (não chega a ser rude), é complexo e, reforço, é fresco e tem um fim de boca prolongado. Está muito jovem e um pouco fechado? Está. Merece tempo.
Vamos a factos. O Proibido Vinha Velha do Pombal 2017, do enólogo e produtor Márcio Lopes (vencedor do prémio Enólogo Revelação do Ano da Revista de Vinho), está na sua 1ª colheita de edição limitada a 868 garrafas, com um preço final que rondará 90 a 100 euros e se forem ver críticas ao conhecido site de reviews Vivino, ainda nem sequer está pontuado porque só tem no máximo 4 reviews. Coisa rara, portanto. Aliás, atrevo-me a dizer que este será um daqueles cromos difíceis de arranjar e de acesso restrito. Felizmente, temos amigos que, tal como nós, adoram partilhar coisas boas.
Alguns detalhes, segundo o próprio Márcio Lopes, o melhor era beber o vinho com a garrafa aberta, pelo menos há duas horas, mas se fosse aberta no dia anterior tanto melhor.
Em dia de jantar com amigos, não nos era possível abrir tal presente no dia anterior, mas respeitámos a regra das duas horas. O vinho foi bebido e provado, após um Beyra Superior (que gostamos muito) e um Blog 2015 (rótulo castanho) do qual gostamos mesmo muito.
Perante o cenário, a acompanhar um prato de carne vermelha cuidadosamente preparado com boa dose de especiarias, o Proibido Vinha Velha do Pombal acompanhou bem e fez-nos viver uma experiência marcante, é inesperado (não é um Douro tradicional) e como disse é intenso.
Não é um vinho para nos envolver, é um vinho para nos acordar e nos manter todos os sentidos atentos, a tentar descortinar as mais as 35 castas presentes nas vinhas velhas, entre elas as castas Alvarelhão, Bastardo, Tinta da Barca, Mourisco, Donzelinho Tinto, Tinta Francisca, Sousão…(será que tem Touriga Nacional, Tinta Roriz?!)
Sublinhamos as notas de fruta preta, bem integrada com a acidez, e o estágio de 15 meses em barricas usadas, a mineralidade e frescura. Se este foi um ano difícil, este vinho é revelador de que a necessidade aguça o engenho.
Por isso, façam como a Vinha Velha do Pombal, quando um vinho se mostrar à altura, ou tiver caráter, não nos deixem a adivinhar, digam porquê. Até o melhor vinho do mundo tem pelo menos um sabor.
Pontuação: 94 (a rever mais lá para a frente)

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