Quinta do Rol: o tempo perguntou ao tempo quanto tempo o vinho tem

E em poucos dias tudo mudou. O mundo de tudo a correr, da novidade, da experiência, do inesgotável convívio, do sem parar… parou. De repente, alguns de nós ficámos em casa, uns sozinhos, outros acompanhados, outros com filhos em casa e o tempo agora não é mais o mesmo, é diferente, sabe diferente. Não sabemos se há menos partilha, mas sabemos que estamos socialmente mais sozinhos. Mas, é precisamente aqui nestes momentos, que não queremos deixar de lembrar a partilha, a experiência e os amigos.

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Nuno Martins da Silva prepara-se para iniciar a prova na Garage Wines.

Porque o sentido de responsabilidade nos diz: “fiquem em casa”,  porque falámos de tempo, porque já temos saudades, vamos falar de vinhos com tempo e dar a conhecer a experiência da última prova a que fomos, na Garage Wines, e que nos deixou com um rasgado sorriso no rosto – falamos da Quinta do Rol, onde a simplicidade, o minimalismo, a salinidade, frescura e, lá está ele, o tempo, são mais do que palavras, são mais do que uma forma de estar, são uma forma de ser.

Há vinhos que nos conquistam pelo palato (em que o vinho faz a sua magia e nos arrebata com sensações e futuras memórias) e há pessoas que nos contagiam pela paixão, entusiasmo, pelo sentido de humor e pela simplicidade. Quando isto acontece em sintonia estão reunidas as condições para uma experiência singular. Esta é realmente a melhor forma de descrever a prova de Quinta do Rol, com o enólogo Nuno Martins da Silva, que teve lugar na Garage Wines, em Matosinhos.

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Preços dos vinhos em prova

A Quinta do Rol situa-se na Lourinhã que é uma das apenas três regiões do mundo (a par de Armagnan e Cognac) para a produção de aguardente vínica (ora digam lá Lourinhac).

Nas palavra do espontâneo Nuno Martins da Silva falámos de um produtor “de qualidade, de terroir, minimalista, com solo argilo-calcário e situado a 6km do mar”. A proximidade com o Oceano Atlântico oferece a esta região características únicas e oferece aos vinhos uma frescura e uma salinidade especial. (sabem aquela sensação de frescura que dá sede, que nos agarra e seca o palato e nos pede mais? e mais?).

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O entusiasmo é tanto que até é difícil fotografar 🙂

Lembram-se que vos falei de tempo. Pois é. A prova começou de forma marcante, com um Alvarinho 2010 (sim, já tinha idade de ir à escola e ficar em casa a ver Netflix sozinho). Este é um vinho singular e a um fantástico preço, face à qualidade, surpresa. Com 10 anos o vinho não dá sinais de oxidação, a cor está imaculada, o nariz salino, mineral, limão. (as memórias, lembrem-se não têm tempo).

Às cegas nunca diríamos que era um Alvarinho (o que é que isso importa se o vinho sabe bem)  o tom mais floral é substituído por frescura, salinidade e aroma cítrico (resumindo, tira a sede, mas dá sede. não é bem lima nem sumo de limão… Não, também não é tequilla).

Ah, se comprarem não se admirem que o vinho tenha cristais – de acordo com o enólogo está tudo relacionado com o processo de estabilização, mas não vos vamos maçar com questões mais técnicas. (cá para nós, oferecer um vinho com cristais e dizer que é algo comum, pode criar um efeito surpresanunca menosprezar o indelével valor de uma boa experiência).

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De seguida partimos para os Arintos, com o 2006 (este já é adolescente e pode pensar que quarentena são férias...). A cor âmbar, o nariz oxidado a lembrar maçã assada faz-nos viajar no tempo, nos sabores, na cor. Na boca, um percurso entre a acidez, a salinidade e aromas de casca de laranja. Tem um final de boca mais longo. O seu irmão de 2015 é mais vivo, mais aguçado, mais mar revolto, e claro, ainda mais salino e com limão mais presente. (sem poesias, mais intenso, fresco, dirigido a quem gosta de um vinho mais direto e fresco).

Passando aos espumantes, sim a Quinta do Rol é uma ótima referência para os aficionados de um bom espumante. O nosso preferido foi o Blanc de Blancs (entenda-se espumante feito com uvas brancas, mas é mais sofisticado em francês). Um Chardonnay de uma vinha mais exposta a Norte, que traz frescura (aqui é o tempo, ou melhor o clima que faz diferença).. Aqui houve segunda fermentação em garrafa em levedura solta, durante 8 anos (lembram-se que falei do tempo, oito anos à nossa espera).

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Espumante Grande Reserva Rosé*

Se querem descobrir o desafio do quinto sentido do paladar – o umami – esta é uma excelente oportunidade (não estamos a inventar nada, prometo!).  O que mais surpreende aqui é toque aveludado na boca (sim, sim, não estamos a inventar, é macio, cremoso e com bolha fina).

O seu irmão Rosé de 2010, feito com a casta Pinot Noir, é nas palavras de Nuno Martins da Silva mais temperamental e sensível, a bolha não é tão fina, é mais seco, na boca é mais especiado. Não nos agradou tanto, é verdade, mas é um estilo que vai agradar a alguns. (claro que há tempo na vida, para perder a cabeça com alguns caprichos).

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Pinot Noir Rosé*

Daqui passámos, para o Pinot Noir Rosé, Barrica 2015, que se afirma como um vinho gastronómico, de nariz oxidado, ao mesmo tempo fresco e frutado. Na boca, é complexo sente-se alguma tosta do estágio em carvalho francês, é untuoso, algo fumado e de alguma forma delicado. 

Nos tintos, o Pinot Colheita 2012, surpreende logo na cor (um vermelho grená, ou granada se quisermos usar as palavras da marca), de tom mais denso e escuro. O vinho, com estágio de 18 meses em barricas de carvalho francês (novo e usado), no nariz revela fruta vermelha, frescura e especiarias. Na boca, revela acidez, especiarias (pimentão, pimenta caiena), uma frescura atlântica (o que é isso perguntam vocês? é um aroma fresco que faz lembrar o aroma ventoso do mar), azeitona e uma integração da madeira, que nunca é dominante. Inesperado e Surpreendente. (Gostámos e comprámos. Fica a sugestão). Acompanhará bem pratos carnes brancas ou mesmo um peixinho assado.

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Pinot Noir Reserva*

 

O Pinot Noir Reserva 2009 , vinho com alguns prémios e a que Robert Parker deu 89 pontos, (Robert e que tal pelo menos 90?) e à qual o Clube de Vinhos Portugueses deu 19 pontos em 20,  é assumidamente um vinho mais quente, de fruta mais madura, em que se sente também alguma tosta do estágio de 18 meses em barricas de carvalho francês e estágio prolongado em garrafa. A presença das especiariais mantém-se, a acidez está bem presente. mais seco e vegetal, mas também claramente mais complexo,  onde há um toque amanteigado e aromas de cacau.

 

Se tivéssemos que comparar, o Colheita é o irmão mais novo, mais irreverente e espontâneo, o Reserva, é o irmão sério, responsável e que sabe o que quer e sabe esperar. 

IMG_3594Para o fim, ficou o Licoroso Pinot Noir 2010, de aroma doce e notas de chocolate e cacau, e, claro, a aguardente VSOP, que se caracteriza pela suavidade e final longo.

Voltando ao tempo de hoje, a prova da Quinta do Rol foi o que tudo o que uma prova deve ser e tudo aquilo do qual já temos saudades, provar e conhecer novos vinhos, aprender algo novo, com pessoas genuínas e apaixonadas por aquilo que fazem e partilhar e brincar com amigos de quem já temos saudades.

 

Obrigado Nuno Martins da Silva e obrigado à Ivone, em nome da Garage Wines, por todas as provas que semanalmente organizam. Esperamos agora que este tempo passe e que nos encontremos em breve!

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